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  • Igor Kondrasovas

Os Heróis da Fabricação


Quando aquele herói do podcast faz o pitch da sua startup para os investidores tubarões em alguma destas aceleradoras ou concursos do momento, os VCs (Venture Capitalists) dizem que seu sonho não passa de um mero negócio de estilo de vida.

O herói empreendedor fica desolado. O plano de crescimento que ele projetou com tanta dedicação não é aquele grande unicórnio que os investidores procuravam. Seu plano não é escalável para dar o retorno necessário.

O que não disseram para o nosso herói é que este negócio bacana que ele criou não precisa ser exponencialmente escalável para dar certo.

Atualmente, nos EUA, podemos ver um movimento de trazer devota pra casa a fabricação dos produtos e trazer junto novos empregos para dentro do país. A ironia aqui é que, apesar do reconhecimento do declínio do parque industrial, os pitchs de startups na área de fabricação só chamam a atenção dos investidores apenas quando elas são tão atrativas, tão promissoras, que podem rapidamente escalar para produção em massa na China.

Como pensa o Investidor

A sede dos investidores pelo alto potencial de crescimento parece crasso, mas é resultado da matemática simples deste modelo de negócio. Aqueles que tem como profissão aplicar o dinheiro dos outros, mesmo após grande investigação e diligência, tem um baixo grau de sucesso.

Além do mais, qualquer projeto precisa começar com a visão do empreendedor esperando altos retornos. Na manufatura, isto geralmente significa alto volume de produtos, que serão produzidos em fábricas que existem lá ... longe.

Infelizmente, a voracidade destes tubarões pelo alto retorno tem sido contagiosa. O outsourcing da produção em massa tem sido condição para o sucesso de uma startup de fabricação.

A cobertura da mídia e programas de estímulo do governo ajudaram a espalhar a mensagem de que os empreendedores devem ser valorizados pela sua visão de "alto impacto", que traduzindo na linguagem dos investidores significa "alto potencial de retorno".

Assim, nós colocamos no pedestal apenas os empreendedores que obtiveram notoriedade com suas empresas de crescimento e lucros enormes ao mesmo tempo que oferecemos pouco incentivo e apoio aos nossos desejados heróis, os fabricantes locais.

A Fabricação Local

Com a desindustrialização que o país atravessa nos últimos anos, aprendemos que a retomada das indústrias locais é mais do que criar novos empregos.

Percebemos com a perda da manufatura para outros países, qual a real importância de sermos produtores próprios, participando em todo o ciclo de vida dos produtos, da invenção ao projeto e depois a fabricação.

Aprendemos que o ecossistema, a vontade de inovar, a criatividade e os avanços tecnológicos estão intimamente ligados aos motores da produção. Para ser competitivo, talvez viáveis no longo prazo, precisamos inovar. E para inovar, precisamos fazer as coisas nós mesmos.

A necessidade em escalar a produção para altos volumes e para outros países distorce ou abafa muitas das iniciativas de novas oportunidades de negócios locais.

Pegue o financiamento coletivo como exemplo. Muitos projetos oferecem formas alternativas de financiamento para serviços, negócios, artes, artesanato e eventos. Mas, quando falamos de fabricação, o financiamento coletivo geralmente serve para a startup ter uma forma de coletar dinheiro suficiente para fazer terceirizar a produção.

O argumento para obter o dinheiro das pessoas é que um grande volume de dinheiro inicial possibilita a encomenda da produção a preços baixos. Então, quando um destes projetos de financiamento coletivo dá certo é utilizado como um modelo para o empreendedor fabricante.

A grande ironia aqui é que nos estamos dando ênfase ao critério do crescimento exponencial para fabricantes em tempos onde existem pelo menos dois novos movimentos que servem para estimular os pequenos fabricantes.

Estamos no meio de um "boom" do Maker movement. É um movimento que dignifica a criatividade prática, ajudando a repelir as noções antigas de que a fabricação é coisa "suja" ou desinteressante, e promovendo os nossos valores natos de fazer coisas com as próprias mãos.

O outro movimento, com novas tecnologias permitem uma mudança de paradigma, que está sendo chamada da nova revolução industrial, que pode emponderar o renascimento dos novos fabricantes locais.

Movimento Maker

O movimento Maker (ou Fazedores) é uma combinação da velha curiosidade, o "faça você mesmo" e novas tecnologias. Feiras públicas são o ponto de encontro do movimento que resgata o fazedor de coisas que existe dentro de cada um de nós.

Estas feiras estão aparecendo por todos os lados e atraindo milhares de participantes. A Casa Branca promoveu a sua própria feira. Mini feiras estão presentes constantemente em algumas lojas de componentes e ferramentas nos EUA.

Fazedores de todos os lados do mundo e de todas as formas de vida estão aplicando tecnologias recentes e baratas como impressão 3D, corte laser, fresas de mesa para fazer artesanato, arte ou inventar coisas pelo simples fato de construir e criar novos produtos.

Agora podemos fazer gambiarras com peças e componentes para fazer coisas digitais e até biológicas. O movimento Maker é uma nova iteração do "faça você mesmo" que sempre esteve presente em todos nós.

Podíamos imaginar que o Maker movement iria impulsionar os novos heróis da produção local. Mas, o modelo mental do investidor distorce o objetivo até nestes casos.

Antes destas feiras públicas, haviam eventos de recrutamento para que os investidores pudessem encontrar boas oportunidades de investimento. Neste eventos, além dos investidores, era possível encontrar empresas oferecendo serviços de levar os empreendedores até a China, ajudando justamente em diminuir a fabricação local.

Tanto dentro quanto fora do movimento Maker, as empresas que recebem investimento externo para crescer de forma explosiva tem sido glamorizada como o ideal e o único caminho para novas idéias e tecnologias.

Na verdade, com a exceção de alguns produtos de alto consumo, a produção não tem sido um negócio interessante para investidores especulativos já faz um longo tempo. Fabricar coisas é difícil e o lucro que dá para tirar da manufatura tem seus limites. A fabricação tipicamente não promete os retornos e projeções que estão presentes nos planos de negócios da empresas de software e de redes sociais.

Obviamente, algumas exceções em produtos inovadores, fabricados por novas startups, mostram que produzir localmente é possível. Mas, na nossa presente falta de reconhecimento e suporte, nós estamos desencorajando até mesmo os empreendedores de estilo de vida de fabricar coisas localmente e trabalhar em escalas mais acessíveis.

Nova Revolução Industrial

A segunda oportunidade para fabricação local surge do progresso tecnológico. Tecnologias digitais de preços acessíveis para produção estão fazendo micro e pequenos fabricantes verdadeiramente competitivos novamente.

Um exemplo desta nova fabricação utilizando estas tecnologias tem sido chamada da "nova revolução industrial" na qual negócios digitais tem sido possíveis para uma nova economia da fabricação.

A maior visão desta nova economia da manufatura tem sido catalisada pela tecnologia da impressão 3D. E, impressão 3D é apenas uma das tecnologias para virar o jogo da "fabricação digital"

Junto com métodos aditivos da impressão 3D, existem tecnologias subtrativas como usinagem CNC, corte a laser e diversas variações da robótica.

O conceito da nova revolução industrial utiliza a internet e a logística apenas como um ponto inicial. Depois utilizam o projeto digital, prototipação digital, controle digital dos equipamentos, colaboração digital e gerenciamento de dados, tornando os pequenos fabricantes competitivos novamente.

No livro "Makers: The New Industrial Revolution", Chris Anderson argumenta que estes novos recursos digitais possivelmente podem impactar com mais intensidade a manufatura do que em outros domínios que já sofreram transformações recentes como música, fotografia, publicações e entretenimento.

O Renascimento da Fabricação

Menos da metade dos americanos trabalham em fábricas atualmente do que na década de 60 do século passado. Entende-se que esta mudança se deve muito mais aos avanços tecnológicos e aumento da eficiência do que da terceirização. Então não faz sentido esperar que haverá novamente uma classe média suportada exclusivamente pelos empregos nas fábricas.

De forma mais realista, podemos esperar alguns novos empregos em fabricas tecnológicas ao mesmo tempo que apoiamos a importância da criação de valor, busca por inovação e produção local.

Uma nova tecnologia e o nosso engajamento recente do movimento faça você mesmo significa que existe uma oportunidade de revigorar a fabricação local. Mãos a obra em coisas produtivas, competitivas, sustentáveis e que geram valor. Este é o espírito que compartilharmos desde os antigos ferreiros da nossa história.

De qualquer forma, o restabelecimento da fabricação local não é um fato consumado. Mas se abrirmos espaço e desejarmos que ela aconteça, precisamos dar o apoio correto. Precisamos cultivar novos heróis.

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